sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

ADOTIVO

aos parentes que conheço
e amo a partir de conhecê-los

tudo me pertence
adoto tudo o que vejo
quando me percebo
já estou mandando beijo

ah!, meu coração
pare de ser tão bobo
mas logo não dá outra
tem amor? logo me afobo

cato pai e mãe e filho
cato tudo e mais um pouco
cato tio e cato avô
já adoto como louco

meu parente, um dia estranho
hoje é osso do meu osso
é tão carne da minha carne
que em casa é alvoroço

"quem meu pai? quem minha mãe?"
já dizia o mestre zen
todo mundo é meu parente
só me basta querer bem

laço em sangue é relação
obrigada pela vida
já o laço adotivo
é maior por vocação:
é a lei do coração

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

VEJAM SÓ VOCÊS

para qualquer poeta
os escritos dos outros nada valem:

a única coisa que presta
é seu próprio egoísmo
seu próprio sentimento
sua própria versão dos fatos

os outros poetas?
que vendam livretos a dois e cinquenta
na feira do rolo

graças a deus não sou poeta:
não tenho apetite
para tanto nojinho
e tanta nojeira

sábado, 17 de dezembro de 2016

S.M.

toda perversidade
um dia
há de ser perdoada
ou esquecida

tem espaço para tudo
neste quarto de tranqueiras
chamado coração

quinta-feira, 23 de junho de 2016

CANINOS

o olhar de um cachorro
não mira o vazio

antes olha nossas falhas
nossos pêsames
nossas dores de não conseguir
ser eternos


*

em cada pálpebra inocente
existe a fúria canina
que ladra, mas não morde:

se ele que é tão cão
é tão humano
e a gente? por que não pode?

domingo, 19 de junho de 2016

DA PORNOGRAFIA

1. da pornografia do corpo
diante da nudez do corpo
resta a alma:
a única que pode realmente ser despida
com o máximo de decência

a lascívia que corrói a carne
está fadada a destruição:
o mesmo nojo de desejar um corpo putrefato
me assusta
quando desejo um corpo vivo

"é sempre a mesma história, meu querido:
um dia você deixa esta vida;
um dia você põe tudo isso para lá;
um dia você vai ver que isto não é o que você procura;
um dia você vai cair em si e perceber
que isto não é o que você estava procurando" 

mal sabem eles
que a vida vai além de todas estas categorias:
que tudo isto é muito forte, e que
mal dá tempo de viver uma vida só

mal sabem eles que escrevo poemas em gotas
- cada palavra equivale a uma dose de veneno -
e que meus pensamentos milimétricos não são masturbação,
ao contrário:
são afagos no rosto de meu vazio

2. da pornografia da alma
a alma nua é tão absurda
quanto um poema acabado
de forma 
abrupta 

sábado, 30 de janeiro de 2016

AUSÊNCIAS

sentes o gosto?
é a paixão que ainda não veio.
é a carta que ainda não veio.
é o alguém que ainda não veio.

teus amigos dizem, liquefeitos,
que a saudade dura apenas um segundo
e que não deves te importar com estas coisas.

para.
olha um canto.
perceba neste canto a tua imagem,
como se dela desprendesse a tua essência.
depois se volte a recolher teus próprios cantos.


* * *

sentes o tato?
é a conta que ainda não veio.
é a mãe que ainda não veio.
é a esperança que ainda não veio.

todo aquele que vence a saudade
se condena em não lembrar as coisas.
a saudade é uma ausência em sangue.

para.
olha teu lado.
perceba nesta gente os teus irmãos,
como se deles surgisse tua identidade.
e então encontras tua própria felicidade.

TROVAS DO AMOR CRESCENTE

dos meus sonhos escondidos
tiro um deles pra sonhar;
é um sonho colorido
tão bom de se imaginar.

é um sonho tão dourado
que ninguém vai perceber;
o seu brilho iluminado
logo vai nos envolver.

tiro o sonho da gaveta
e começo a construir;
nosso sol será um cometa
que só vai nos divertir.

terá fruta bem madura
e nas plantas muita cor;
terá um livro capa-dura
e não haverá rancor.

se o violão não fala
minhas mãos não vão calar;
os meus braços como em gala
te convidam pra dançar.

nossa casa na floresta
tem seresta e entardecer;
tem a madrugada: festa
que vem ao amanhecer.

quando chega o nosso sono
com a vontade de dormir;
a inocência do desejo
corre para se despir.

este sonho encantado
longe de todo terror;
é um refúgio ensolarado
onde quer que ele for.

dos meus sonhos escondidos
tiro um deles pra sonhar;
os meus braços como em gala
te convidam pra dançar...

domingo, 20 de setembro de 2015

O SER COITADO

o ser coitado nunca abandonou o que lhe era estranho
desajustado
fora do comum

o ser coitado aprendeu a todos dias ir além do seu limite
corrigindo
catando migalhas
catando
calando
calando

o ser coitado sempre admirou de olhar no espelho
o homem que sonhou ser
mas quando abaixava os olhos via
refugo

o triste tadinho que procurava refúgio
hoje cresceu, tem barba e bigode:
mas nos simples jogos da vida
quando pessoas cruzam-se lá e cá
ele chora

e quando chora, como geme!
como desterra seu grito úmido
infantil
instintivo e bestial
como se quisesse
colo
carícia
terra & água
vida enfim

olho em seus olhos. danado
daquele que ousou desvirtuar suas primícias;
que insistiu em fazê-lo torto;
em ensiná-lo a andar para os lados;
quando não precisava ser manco

hoje, o ser coitado ali está,
com barba, dentes e bigode:
mas quando chora,
ah! como chora!

terça-feira, 19 de maio de 2015

CÉREBRO

ando pelo meio-fio dos nervos
tropeço no cerebelo
e o córtex me solta um xingo

sento em meio ao infinito
dos impulsos elétricos
que nunca deixam
nem me deixarão dormir

os lobos que não uivam, ah,
deixaram aqui um pouco de merda
da comida que comeram

sempre fui ocupado com minha vida
na intensidade
paralelamente à realidade

se eu vivo de verdade
vivo de pouquinho:

como vou pelo meu caminho
se no meio de tanto neurônio
fico sozinho?

domingo, 22 de março de 2015

O BAÚ

um dia,
simplesmente,
não precisei mais:

não precisei das mãos que um dia me aplaudiram.
não precisei dos abraços que pedi.
não precisei da ajuda que obrigatoriamente me davam.
não precisei das madrugadas a implorar alguém.
não precisei do sexo fútil e inútil.
não precisei da oração alheia.

eu era um. e ali eu observava as pessoas,
todas tímidas,
ao redor de mim. era estranho
ver naquela situação.
eu era um risco, um traço errado,
algo sobrando no mundo dos vivos...

meu riso imundo ecoava nos olhos deles,
piedosos,
como se também eles sentissem orgasmo e dor.
era eu contra eles:
eu permanecia com os olhos fechados.

eu estava morto,
e não precisava mais de nada.

segunda-feira, 16 de março de 2015

MEDIANO

bom dia para você que acordou revigorado
para mais um dia de trabalho

bom dia para você que tem café
e pode escolher o que comer

bom dia para você que toma banho
e escolhe o perfume do dia:
francês ou nacional

bom dia para você que pega trânsito
e ônibus lotado

bom dia para você que pega fila
e conversa com todos no banco

bom dia para você que reclama
para você que pensa
que a culpa é sempre dos outros

tem gente que não acorda revigorada
porque não tem cama

tem gente que não tem café
e nem o que comer

tem gente que não toma banho
e não é por moda europeia
(eles não têm água)

tem gente que trabalha a pé
porque escolhe: o busão ou o café

tem gente que não pega fila no banco
porque trabalha em regime escravo

tem gente que louvaria a deus
se tivesse a vida que você tem:
mas insiste em maldizer

segunda-feira, 9 de março de 2015

CERTO

não sou feito de imagens:

o que me tange é a palavra...

sem opção de escolha
sem chance de retorno
sem barco salva-vidas

sem raciocínio
sem roupa
sem nada

sexta-feira, 6 de março de 2015

COMO CHEGA O AMOR

nunca estive preparado para o amor.
pensava que fosse doce união de almas
ou mágico momento
onde meus olhos cruzariam outro olhar.
imaginava em devaneios que o amor seria
amar somente um reflexo de mim mesmo.
como se a essência da troca de duas almas
dependesse apenas de uma.
nunca consegui invocar o amor.
nem com músicas ou poemas
ou arrancando pétalas das flores.
ousei esquecer-me:
abandonei-me ao cais.
e então senti as pernas tremer.
senti os olhos chorarem
e os lábios sorrirem.
o amor havia chegado
e eu sequer havia percebido.

terça-feira, 3 de março de 2015

PONTO DE DIÓGENES

"Eu procuro um homem"
(Diógenes de Sínope, 413-323 a.e.c)

nunca encontrei homem algum
que conseguisse encarar-me os olhos
e não tivesse vergonha para assumir
sua força

nunca encontrei homem algum
que fosse capaz de ver-me humano
que fosse capaz de ser também homem
quando outro homem lhe ciscasse o terreno

nunca encontrei homem algum
que fosse capaz de afogar minha sede
de matar minha fome
de viver com meu juízo

nunca encontrei homem algum
que honrasse sua aliança!
e nunca encontrei homem algum
que não pensasse de sua pança!

os homens que encontrei
sempre flertaram com o fracasso:
sempre tontos, sempre cegos,
sempre irremediavelmente

homens

segunda-feira, 2 de março de 2015

BENTO (uma oração a um homem comum)

tua jaqueta não nega:
o frio de monte cassino
não é tão gelado
quanto o frio da alma

teus olhos fechados não mentem:
a verdade é de poucos, e a mentira
não é tão convincente
quanto o sofrimento

tua mão direita não luta:
o cálice embebido em veneno
não sufoca tanto
quanto o abraço improvisado

teu semblante não muda:
canção ao longe, cigarro ao lado
não se importando
quando o sol irá surgir

teu peito não esconde:
o ego aguarda o gozo e a palma

mas não cedes ao grito do inimigo

te submerges num mar de calma

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