terça-feira, 30 de dezembro de 2014

DE LA LIMOSNA (da esmola)

não ouses suprir tuas carências:
serás condenado eternamente
a saciar-te

se for impossível a vida feliz
chore
(mas continue vivendo)

não aceite as moedas
de quem te oferece carinho fácil
de quem diz que te ama
porque quer teu ódio

se não der para viver sorrindo
viva assim mesmo

doendo

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

MESTRE

a um josé pintado às avessas por drummond

                         *

meu amor pelo poema eu perderia
se eu encontrasse seu artífice?

     se eu pudesse olhar em seus olhos
          e saber o que sentia?

     se eu pudesse abraçá-lo de repente
          e ouvir o que diria?

     se eu pudesse vê-lo por inteiro
          e não apenas parte do seu dia?

     se eu pudesse beijar suas mãos
          e encontrar um sorriso de alegria?

deixe como está. não perturbe
o que habita no profundo das águas

(o amor só é possível
porque amamos o que não vemos)

FÊNIX (ou a ressurreição)

deixe que o orvalho de teus olhos
(a lágrima)
regue a tua plantação

só assim terás vigor
para enfrentar as tempestades
e amanhecer o sol

domingo, 28 de dezembro de 2014

FOTOGRAFIA OCULAR

recordo o tempo
em que me pediste:

          fecha as pálpebras
          e abre os olhos
          para fotografar-me
          com o coração

o que faço com tais imagens,
se não posso queimá-las,
vendê-las, jogá-las ao chão?

[sinto-te o tempo todo aqui]

junto tuas fotografias em baú antigo
lá no fundo das memórias:

meu peito é punhado de negativos

sábado, 27 de dezembro de 2014

AO AMIGO DESTES DIAS

                 uma canção de amigo atualizada¹

se eu 'stiver co' meu amigo
e comigo ele 'stiver:
ay meu deus, será tão bom...

beijaria o meu umbigo
e eu seria sua mulher:
ay meu deus, será tão bom...

acredite se quiser
que de mim no' si'enjoaria:
ay meu deus, será tão bom...

se quiser-me de mulher
o amaria noite e dia:
ay meu deus, será tão bom...

e assim ele poderia
nunca em vida se lembrar:
ay meu deus, será tão bom...

o virtual que deixaria
para sempre me amar:
ay meu deus, será tão bom...

- - - - - - -
¹ A "canção de amigo" é um estilo de poema medieval português, da época do Trovadorismo (século XII e XIII, aproximadamente. Embora fossem apenas homens seus autores -- por conta do status quo daquela sociedade -- o eu-lírico do poema é feminino, sendo o "amigo" um namorado. A dama pode falar de seu amor ao próprio amigo, a D-us, à sua mãe (uma espécie de super-ego freudiano), às amigas e até mesmo à Natureza. Prezei pela grafia mais original no início do poema, mas com o tempo atualizei a linguagem para o texto não tornar-se demasiado arcaísta. Mantive os apóstrofos e a palavra <<ay>>, no entanto, para caracterizá-lo como canção de amigo. [o autor]

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

ABOUT ZEN LIFE

não dê vida ao seu instinto
nem dê vida ao seu desengano

um minuto de calma
é mais profundo
que um oceano

AOS JOVENS

menos conectividade
mais responsabilidade

menos concorrência
mais vivência

menos fama de pegador
mais casado por amor

menos esperança em outra vida
mais esperança nesta

menos beijos na boca
mais beijos na testa

NARCISA

circe é egoísta demais
para dar atenção a alguém

afaga seus próprios cabelos
ressoa seu canto em si mesma
guerreia seus medos com espada
afoga seu sexo entre os dedos

por isso me cabe
ulisses

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

IRONIA INTER PARES (TRÊS INDRISOS)

                    I

cita as palavras em vão
para expressar a emoção:
eis o poeta e seu poema --

não importa o sofrimento:
se o que vale é o sentimento
vale tudo em qualquer tema...

mas se a vida pesa a mão,

cada um com seus problema!

                    II

outro poeta, minha gente,
diz ao mundo que se sente
tão imenso e desbragado --

fiquei pouco suspeitoso
e lhe cochichei: "seu moço,
estás ficando exagerado:

pois o tal poema-enchente

vai matar-te afogado!"

                    III

ainda vi um tão simplista
mas pensei: "é um artista"...
quando vejo, quase caio --

era um poeta diferente
que até falou pra gente
que o verão começa em maio

quando recobrei a vista

vi que era um papagaio!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

MERETRIZ (ou o folhetim)

quando você estiver bem
se aproxime de mim
me trate como benzinho
dê a mim tudo do belo e do bom
para ser meu homem
meu maior

     quando você estiver mal
     vá embora daqui
     cate suas coisas e prendas
     tire suas bitucas de cigarro
     não me vendo a um miserável
     :
   
     sou melhor

DOS CANCERIANOS

se me magoas
aceito
e guardo

se me quiseres qualquer dia
e chegares sorridente
para entrar em meu coração
ouvirás

   - tens a chave?

CARTA ABERTA A JESUS CRISTO

jesus
se você chorasse
você choraria o que eu chorei?

jesus
se você amasse
você amaria o que eu amei?

jesus
se você entendesse
você duvidaria do que eu duvido?

jesus
se te ouvissem
ouviriam as coisas que eu digo?

jesus
se você escutasse
você ouviria as coisas que eu escuto?

jesus
se você temesse
você teria medo das coisas que eu temo?

jesus
se você soubesse
o que é ser humilhado pelo seu jeito
por seu gosto
seu traço
e religião

se você soubesse o que é ser abandonado
pelo pai
pela mãe
e a família

se você fosse acusado
abusado
mutilado
desrespeitado

se você apanhasse na escola
em casa
e se na igreja você fosse chamado
de miserável

jesus
se você fosse humano como eu
você afirmaria o que eu digo?

jesus
se você é deus nos céus e terra
porque não fala comigo?

NATAL PARA ADULTOS

há muito
esperava pela data

quando soou a meia-noite
tomou banho
vestiu a calça, sapatos
botou camisa vermelha

tirou o paletó amarfunhado
do fundo da gaveta

antes de sair encarou o espelho
respirou fundo
e passou a brilhantina

(as mamães noel
queriam presente)

BLUES

neste mundo de quadrados
não me encaixo

nesta terra
em que homens apedrejam os deuses
não relaxo

neste caos de pluma e sangue
entorno o tacho

e vivo assim
estranho:
de cabeça pra baixo

NUM SHABAT

não se preocupe
que amanhã é outro dia
que amanhã
a fome passa

não se preocupe
que amanhã eu volto
que amanhã
eu chego de novo

não se preocupe
que amanhã eu nasço
que amanhã
é sábado

não se preocupe
que o sol faz o favor
de amanhecer o dia

Q. I. (QUOFICIENTE INDICATIVO)

quem não recebe bênção
não cresce

bebe
borda
grita
separa
junta
separa
bebe
morre

e vira sucesso editorial

POPULAR

escuto vozes sussurrando:

       -a poesia não é do povo
        a poesia não é do povo
        a poesia não é do povo

e eu prefiro lançar-me ao comum
não ter discurso erudito
ouvir xingamento dos doutos

       e fazer poesia do povo
          fazer poesia do povo
          fazer poesia do povo

SEM TÍTULO

havia um homem
que sonhava

tanto sonhava
que quando foi expulso de casa
tornou-se
morador de lua

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

SEM TÍTULO

faça silêncio
e escute quietinho
as flores se abrirem

ouça as pétalas
o estalar do caule
e as raízes

pare, ouça o sol
na sua imensa majestade
acordando --

minha palavra tem jeito de amanhecer

POEMIX #1

sou romântico à moda antiga
mas com jeito bem zureta:
debaixo da regata
a gravata borboleta

* * *

o que tem um pelo grisalho
que um novo não tem?
-vida

* * *

não curto muito a imagem
sou mais a palavra

ela fica

* * *

anotação:
como ousas considerar no poema
algo que o poeta não disse?

* * *

se eu fosse mulher, eu juro:
viveria a vida masculina
triplamente mais intensa

O RÁDIO

o rádio
tornou-se tão obsoleto
que danço sozinho
com minha própria sombra
entre as ondas FM

SEM TÍTULO

verdadeiro poema só nasce
quando vê o sol nascer.
quando cambaleia tonto
enjoado de beber.
quando faz viver leitores
e o poeta faz morrer.

verdadeiro poema nasce
só em mente bagunçada.
na mente dos vagabundos
e de quem não cria nada:
muitas projeções malucas
nas ideias emprestadas

MADRUGADAS EM PINHEIROS #1

triste saber que todos são linguagem,
que não passam as coisas de ambientes;
como se fôssemos nossos pacientes
medicando-nos com sombras de imagens

fugidias, passageiras, disformes,
desencaixadas do mundo real;
tão vazias de sentido, que os homens
tornam ao posto do mundo animal!

tais prédios, tais cores artificiais
excitam olhos que buscam alívio
na cidade, à sombra dos umbrais;

impossível encontrar paz urbana
entre sons e cores do caos horrível:
sonho azul que somente nos engana...

DOS POEMAS LIVRES

se avistares qualquer poema
flanando pelas calçadas
vagando pelas ruas
ou parado nas estações
deixe-o ir embora

pois a qualquer momento ele volta
enchendo-te de beijos
abraços
e palavras na chegada

CAIXA DE PANDORA

dentro de cada amor
existe um segredo:
a desilusão

forjamos nossos egos
à vista do bem-amado que ali está
(mas lá dentro
 no fundo
 continuamos os mesmos)

com o passar das horas
acovardamo-nos
tornamo-nos monstros
odiamo-nos
fazemos do nosso próprio corpo
a selvageria
o horror
a infâmia

e então o que era de vidro se quebra:
o anel dourado, a joia, o brilhante
tudo o que era belo -- as palavras & as coisas
vão pelos ares

deixamos de amar cada minuto
deixamos de sentir as mesmas coisas
deixamos de ser, deixamos tudo
ao pó

até que algum apiedado
recolha nossos cacos
e cole o que restou

POESIA EM BASTIDOR

fazer poesia
exige do homem
lançar-se ao sujo:

sair à rua
beber todas
cortejar o proibido
fazer sexo
chorar as pitangas

mas no papel esta saída
esta bebedeira
este proibido
este sexo
este choro
tem algo de tão puro, meu Deus!

COMO RETORNAR À VIDA

voltamos à nossa infância
a cada sussurro
a cada colo
a cada abraço
a cada beijo roubado

voltamos à nossa infância
quando vivemos

PROMETEU

não sei desvendar cavernas
engendrar mitos
buscar explicações
dentro do meu eu

não sei explorar vazios
construir catedrais
inebriar-me com o vão
alheio

desejo puramente o ombro forte
o abraço cálido
a vida, dínamo sagrado que preenche
os vivos:

se acaso é a semelhança
pura descoincidência
não estou banhando-me no lago de espelhos --

eu mudo

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