domingo, 20 de setembro de 2015

O SER COITADO

o ser coitado nunca abandonou o que lhe era estranho
desajustado
fora do comum

o ser coitado aprendeu a todos dias ir além do seu limite
corrigindo
catando migalhas
catando
calando
calando

o ser coitado sempre admirou de olhar no espelho
o homem que sonhou ser
mas quando abaixava os olhos via
refugo

o triste tadinho que procurava refúgio
hoje cresceu, tem barba e bigode:
mas nos simples jogos da vida
quando pessoas cruzam-se lá e cá
ele chora

e quando chora, como geme!
como desterra seu grito úmido
infantil
instintivo e bestial
como se quisesse
colo
carícia
terra & água
vida enfim

olho em seus olhos. danado
daquele que ousou desvirtuar suas primícias;
que insistiu em fazê-lo torto;
em ensiná-lo a andar para os lados;
quando não precisava ser manco

hoje, o ser coitado ali está,
com barba, dentes e bigode:
mas quando chora,
ah! como chora!

terça-feira, 19 de maio de 2015

CÉREBRO

ando pelo meio-fio dos nervos
tropeço no cerebelo
e o córtex me solta um xingo

sento em meio ao infinito
dos impulsos elétricos
que nunca deixam
nem me deixarão dormir

os lobos que não uivam, ah,
deixaram aqui um pouco de merda
da comida que comeram

sempre fui ocupado com minha vida
na intensidade
paralelamente à realidade

se eu vivo de verdade
vivo de pouquinho:

como vou pelo meu caminho
se no meio de tanto neurônio
fico sozinho?

domingo, 22 de março de 2015

O BAÚ

um dia,
simplesmente,
não precisei mais:

não precisei das mãos que um dia me aplaudiram.
não precisei dos abraços que pedi.
não precisei da ajuda que obrigatoriamente me davam.
não precisei das madrugadas a implorar alguém.
não precisei do sexo fútil e inútil.
não precisei da oração alheia.

eu era um. e ali eu observava as pessoas,
todas tímidas,
ao redor de mim. era estranho
ver naquela situação.
eu era um risco, um traço errado,
algo sobrando no mundo dos vivos...

meu riso imundo ecoava nos olhos deles,
piedosos,
como se também eles sentissem orgasmo e dor.
era eu contra eles:
eu permanecia com os olhos fechados.

eu estava morto,
e não precisava mais de nada.

segunda-feira, 16 de março de 2015

MEDIANO

bom dia para você que acordou revigorado
para mais um dia de trabalho

bom dia para você que tem café
e pode escolher o que comer

bom dia para você que toma banho
e escolhe o perfume do dia:
francês ou nacional

bom dia para você que pega trânsito
e ônibus lotado

bom dia para você que pega fila
e conversa com todos no banco

bom dia para você que reclama
para você que pensa
que a culpa é sempre dos outros

tem gente que não acorda revigorada
porque não tem cama

tem gente que não tem café
e nem o que comer

tem gente que não toma banho
e não é por moda europeia
(eles não têm água)

tem gente que trabalha a pé
porque escolhe: o busão ou o café

tem gente que não pega fila no banco
porque trabalha em regime escravo

tem gente que louvaria a deus
se tivesse a vida que você tem:
mas insiste em maldizer

segunda-feira, 9 de março de 2015

CERTO

não sou feito de imagens:

o que me tange é a palavra...

sem opção de escolha
sem chance de retorno
sem barco salva-vidas

sem raciocínio
sem roupa
sem nada

sexta-feira, 6 de março de 2015

COMO CHEGA O AMOR

nunca estive preparado para o amor.
pensava que fosse doce união de almas
ou mágico momento
onde meus olhos cruzariam outro olhar.
imaginava em devaneios que o amor seria
amar somente um reflexo de mim mesmo.
como se a essência da troca de duas almas
dependesse apenas de uma.
nunca consegui invocar o amor.
nem com músicas ou poemas
ou arrancando pétalas das flores.
ousei esquecer-me:
abandonei-me ao cais.
e então senti as pernas tremer.
senti os olhos chorarem
e os lábios sorrirem.
o amor havia chegado
e eu sequer havia percebido.

terça-feira, 3 de março de 2015

PONTO DE DIÓGENES

"Eu procuro um homem"
(Diógenes de Sínope, 413-323 a.e.c)

nunca encontrei homem algum
que conseguisse encarar-me os olhos
e não tivesse vergonha para assumir
sua força

nunca encontrei homem algum
que fosse capaz de ver-me humano
que fosse capaz de ser também homem
quando outro homem lhe ciscasse o terreno

nunca encontrei homem algum
que fosse capaz de afogar minha sede
de matar minha fome
de viver com meu juízo

nunca encontrei homem algum
que honrasse sua aliança!
e nunca encontrei homem algum
que não pensasse de sua pança!

os homens que encontrei
sempre flertaram com o fracasso:
sempre tontos, sempre cegos,
sempre irremediavelmente

homens

segunda-feira, 2 de março de 2015

BENTO (uma oração a um homem comum)

tua jaqueta não nega:
o frio de monte cassino
não é tão gelado
quanto o frio da alma

teus olhos fechados não mentem:
a verdade é de poucos, e a mentira
não é tão convincente
quanto o sofrimento

tua mão direita não luta:
o cálice embebido em veneno
não sufoca tanto
quanto o abraço improvisado

teu semblante não muda:
canção ao longe, cigarro ao lado
não se importando
quando o sol irá surgir

teu peito não esconde:
o ego aguarda o gozo e a palma

mas não cedes ao grito do inimigo

te submerges num mar de calma

MÃOS

minha mão direita
faz com a esquerda
conciliação:

uma aliança
põe uma mão
na outra mão.

mas qual a necessidade
da aliança de uma mão
com outra mão?

não é inútil
juntar-se ao caminho
que está na contramão?

mexem na minha cabeça
com dez dedos diferentes
que apertam o coração...

não revelam pensamentos
nem demonstram suas ações:
tudo é maquinação!

e assim passa a existência
e assim passa a história
neste corpo sem função:

é a minha mão direita
com a minha mão esquerda
fazendo conciliação...

FADE TO BLACK (bomba-relógio)

dez. o enorme preço das coisas
confunde meu coração
de olhos jovens e hábito senil.
enquanto vejo a marcha alheia,
corro para dentro do meu próprio interior.
há muitas palavras para nada dizer,
enquanto o significado exato me atinge em cheio.
percebo-me um milhão em um só.
desejo correr pelas avenidas
quando me torno

nove. já são onze da noite
e o clima vai se deitar mais frio.
não tenho acalanto. meu repouso
é dormir nos braços dos que me maltratam.
sinto a dor de quem me beija
e o amor de quem me escarra.
pareço apenas dois
na multidão de fantoches que me esperam.
quando me dou conta já sou

oito. o espaço é pequeno,
as palavras muitas,
e o suor gelado. espera no hospital.
o branco traz uma espécie de medo,
algo obscuro demais para ser tão alvo assim.
como se as folhas vazias apontassem minha insignifi

sete. três da manhã.
os vagabundos dominam a calçada,
as meninas entram pelo banco do passageiro.
o ar tem o cheiro
da pobre dama da noite que se abriu.
esqueci que não sou mais criança
quando o relógio bate

seis. barulho no metrô.
pessoas indo e voltando.
o desconhecido me vira a cara.
o pescoço manchado de sangue.
a distância entre o ódio e o soco.
os meninos riem.

cinco. a cidade não para
enquanto o peito escancara
essa voz
que no peito estala.
o mundo compõe a rima.

quatro. o que está além?
o que vem depois do fim?
"pai? você pode me ouvir?
pai? você está aí?"

três. manchete de jornal:
"chacina de deuses no monte olimpo.
ainda se procuram os culpados."

dois. estou preso neste quarto bagunçado
quando sinto que sou

UM!!! quem sou eu, afinal?

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

JAZZ

cada nota é um fim em si mesma:
é traço, risco;
ponte que atravessa
e vê o rio passando
levando tudo consigo
correndo
indo embora

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

PANACEIA

          a charles bukowski

poesia é o único remédio plausível
quando o seu emprego é uma bosta
e você espera que o calor passe

poesia é a solução imaginável
no momento de perder quem se ama
ou quando você ama quem não te ama

poesia é o fio de ariadne
no labirinto ridículo do espaço
nas horas à espera do exame
no trânsito caótico da cidade
no sangue quente do desejo

poesia é o máximo do mínimo
a otimização da miséria da vida
o recorte, o ímpar, o difícil:
o vivo

poesia é o choro contido
o orgasmo não dito e a festa surpresa
poesia não é discurso escroto, sem sentido
é as malas na porta e as cartas na mesa

poesia vai além do gênero literário
é o único posto de emprego
que qualquer pessoa pode assumir
sem de fato exercê-lo

poesia vai além do discurso

poesia é rio que
simplesmente

segue seu curso

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

DOS DIFÍCEIS

impossível fazer poesia
sem contemplar
sem ver as coisas
pelo avesso

condenamo-nos a recortar fatos
notícias
súmulas condensadas:
palavras

poesia morreu
no dia que disseram
que o difícil era difícil
que o fácil era rápido
(de engolir)

não aceito. o fácil é o óbvio.
e o difícil?

ah

               este transcende

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

POEMAS REPUBLICANOS (o gosto pela vida)

nestas ruas tão desertas
só pensei na coisa certa
de amar e de sentir

quero minha realidade
da mais pura mocidade
onde sempre residi

vou pedir minha coberta

só no dia em que partir

* * *

se eu contasse o que vi, ai!
não diria nem meu pai
que a mim é mais vivido

junto com um rapazote
estava junto um sacerdote
com o ar esbaforido

eu já não entendo mais

- este mundo está perdido!

PARTE

andando pelo caminho
encontrei dois olhos
que me entenderam como sou

(o tempo nos afastou)

- alguém viu
  meu pedaço por aí?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

ESMERALDA

osasco:
               já tive asco

presidente altino:
               do tal menino

ceasa:
               que saiu de casa

vila lobos - jaguaré:
               e deu no pé

                              * * *

cidade universitária:
               foi pra gandaia

pinheiros:
               com o mundo inteiro

hebraica - rebouças:
               ver as moças

cidade jardim:
               mas teve fim

                              * * *

vila olímpia:
               na estrada ímpia

berrini:
               citou bernini

morumbi:
               rezou assim

                              * * *

granja julieta:
               "do ataque da besta

santo amaro:
               e do mal o faro

socorro:
               livrai-me, pois morro!"

                              * * *

jurubatuba:
               e abriu a sua tuba¹

primavera-interlagos:
               esquecendo de catar os cacos

grajaú:
               conquistou o céu azul


¹ tubaína, tipo de refrigerante comum no brasil.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

INDRISO PENTATÔNICO (ou "the way we were")

luzes na estação.
sombras de alguém:
no meu corpo um vão...

          vivo memoriais
          dormindo; também
          acordado, e mais:

          quando perco a paz

indo pr'a estação...

REENCONTRO

quando o velho pai alçou o filho aos ombros
foi motivo de grande alegria

era como se erguesse
a hóstia
que o redimia de seus erros --

o homem entendeu que seu pai era apenas
alguém

e então pôde contemplar o horizonte entre a luz e o paraíso

nos olhos do velho homem

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

DOS CANCERIANOS #2

tem o jeito sincero, gosto doce
e ventre fértil

tem o brilho nos olhos, tão único e imensidão
que nunca será capaz de mentir
ou enganar

tem o corpo franzino, desatento
como se este corpo aqui fosse inútil
e o único movimento que o interessasse
fosse o do espírito

tem a vida governada por lembranças
sendo seus segredos memórias ornadas a ouro:
é o modo de manter perto o que ama
sem ser visto
-- por isso é tão humano --

tem tanta humanidade
que não é capaz de viver sozinho

tem tanta vida que não simplesmente existe

sonha

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

ALDRAMORTE, ALDRAVIDA

[poesia visual* em alemão. tradução:]

sim                  mas
nós                  agora
iremos             vivemos
todos               e
morrer             amamos

*as aldravias são poemas de seis versos, com uma palavra cada. adaptei a tradução, no entanto, para cinco palavras. o original, em alemão, conservou as seis. o título destaca exatamente a contraposição dos temas: se uma aldravia fala de morte, a outra fala de vida -- aldravida.

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