terça-feira, 27 de janeiro de 2015

JAZZ

cada nota é um fim em si mesma:
é traço, risco;
ponte que atravessa
e vê o rio passando
levando tudo consigo
correndo
indo embora

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

PANACEIA

          a charles bukowski

poesia é o único remédio plausível
quando o seu emprego é uma bosta
e você espera que o calor passe

poesia é a solução imaginável
no momento de perder quem se ama
ou quando você ama quem não te ama

poesia é o fio de ariadne
no labirinto ridículo do espaço
nas horas à espera do exame
no trânsito caótico da cidade
no sangue quente do desejo

poesia é o máximo do mínimo
a otimização da miséria da vida
o recorte, o ímpar, o difícil:
o vivo

poesia é o choro contido
o orgasmo não dito e a festa surpresa
poesia não é discurso escroto, sem sentido
é as malas na porta e as cartas na mesa

poesia vai além do gênero literário
é o único posto de emprego
que qualquer pessoa pode assumir
sem de fato exercê-lo

poesia vai além do discurso

poesia é rio que
simplesmente

segue seu curso

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

DOS DIFÍCEIS

impossível fazer poesia
sem contemplar
sem ver as coisas
pelo avesso

condenamo-nos a recortar fatos
notícias
súmulas condensadas:
palavras

poesia morreu
no dia que disseram
que o difícil era difícil
que o fácil era rápido
(de engolir)

não aceito. o fácil é o óbvio.
e o difícil?

ah

               este transcende

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

POEMAS REPUBLICANOS (o gosto pela vida)

nestas ruas tão desertas
só pensei na coisa certa
de amar e de sentir

quero minha realidade
da mais pura mocidade
onde sempre residi

vou pedir minha coberta

só no dia em que partir

* * *

se eu contasse o que vi, ai!
não diria nem meu pai
que a mim é mais vivido

junto com um rapazote
estava junto um sacerdote
com o ar esbaforido

eu já não entendo mais

- este mundo está perdido!

PARTE

andando pelo caminho
encontrei dois olhos
que me entenderam como sou

(o tempo nos afastou)

- alguém viu
  meu pedaço por aí?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

ESMERALDA

osasco:
               já tive asco

presidente altino:
               do tal menino

ceasa:
               que saiu de casa

vila lobos - jaguaré:
               e deu no pé

                              * * *

cidade universitária:
               foi pra gandaia

pinheiros:
               com o mundo inteiro

hebraica - rebouças:
               ver as moças

cidade jardim:
               mas teve fim

                              * * *

vila olímpia:
               na estrada ímpia

berrini:
               citou bernini

morumbi:
               rezou assim

                              * * *

granja julieta:
               "do ataque da besta

santo amaro:
               e do mal o faro

socorro:
               livrai-me, pois morro!"

                              * * *

jurubatuba:
               e abriu a sua tuba¹

primavera-interlagos:
               esquecendo de catar os cacos

grajaú:
               conquistou o céu azul


¹ tubaína, tipo de refrigerante comum no brasil.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

INDRISO PENTATÔNICO (ou "the way we were")

luzes na estação.
sombras de alguém:
no meu corpo um vão...

          vivo memoriais
          dormindo; também
          acordado, e mais:

          quando perco a paz

indo pr'a estação...

REENCONTRO

quando o velho pai alçou o filho aos ombros
foi motivo de grande alegria

era como se erguesse
a hóstia
que o redimia de seus erros --

o homem entendeu que seu pai era apenas
alguém

e então pôde contemplar o horizonte entre a luz e o paraíso

nos olhos do velho homem

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

DOS CANCERIANOS #2

tem o jeito sincero, gosto doce
e ventre fértil

tem o brilho nos olhos, tão único e imensidão
que nunca será capaz de mentir
ou enganar

tem o corpo franzino, desatento
como se este corpo aqui fosse inútil
e o único movimento que o interessasse
fosse o do espírito

tem a vida governada por lembranças
sendo seus segredos memórias ornadas a ouro:
é o modo de manter perto o que ama
sem ser visto
-- por isso é tão humano --

tem tanta humanidade
que não é capaz de viver sozinho

tem tanta vida que não simplesmente existe

sonha

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

ALDRAMORTE, ALDRAVIDA

[poesia visual* em alemão. tradução:]

sim                  mas
nós                  agora
iremos             vivemos
todos               e
morrer             amamos

*as aldravias são poemas de seis versos, com uma palavra cada. adaptei a tradução, no entanto, para cinco palavras. o original, em alemão, conservou as seis. o título destaca exatamente a contraposição dos temas: se uma aldravia fala de morte, a outra fala de vida -- aldravida.

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