domingo, 22 de março de 2015

O BAÚ

um dia,
simplesmente,
não precisei mais:

não precisei das mãos que um dia me aplaudiram.
não precisei dos abraços que pedi.
não precisei da ajuda que obrigatoriamente me davam.
não precisei das madrugadas a implorar alguém.
não precisei do sexo fútil e inútil.
não precisei da oração alheia.

eu era um. e ali eu observava as pessoas,
todas tímidas,
ao redor de mim. era estranho
ver naquela situação.
eu era um risco, um traço errado,
algo sobrando no mundo dos vivos...

meu riso imundo ecoava nos olhos deles,
piedosos,
como se também eles sentissem orgasmo e dor.
era eu contra eles:
eu permanecia com os olhos fechados.

eu estava morto,
e não precisava mais de nada.

segunda-feira, 16 de março de 2015

MEDIANO

bom dia para você que acordou revigorado
para mais um dia de trabalho

bom dia para você que tem café
e pode escolher o que comer

bom dia para você que toma banho
e escolhe o perfume do dia:
francês ou nacional

bom dia para você que pega trânsito
e ônibus lotado

bom dia para você que pega fila
e conversa com todos no banco

bom dia para você que reclama
para você que pensa
que a culpa é sempre dos outros

tem gente que não acorda revigorada
porque não tem cama

tem gente que não tem café
e nem o que comer

tem gente que não toma banho
e não é por moda europeia
(eles não têm água)

tem gente que trabalha a pé
porque escolhe: o busão ou o café

tem gente que não pega fila no banco
porque trabalha em regime escravo

tem gente que louvaria a deus
se tivesse a vida que você tem:
mas insiste em maldizer

segunda-feira, 9 de março de 2015

CERTO

não sou feito de imagens:

o que me tange é a palavra...

sem opção de escolha
sem chance de retorno
sem barco salva-vidas

sem raciocínio
sem roupa
sem nada

sexta-feira, 6 de março de 2015

COMO CHEGA O AMOR

nunca estive preparado para o amor.
pensava que fosse doce união de almas
ou mágico momento
onde meus olhos cruzariam outro olhar.
imaginava em devaneios que o amor seria
amar somente um reflexo de mim mesmo.
como se a essência da troca de duas almas
dependesse apenas de uma.
nunca consegui invocar o amor.
nem com músicas ou poemas
ou arrancando pétalas das flores.
ousei esquecer-me:
abandonei-me ao cais.
e então senti as pernas tremer.
senti os olhos chorarem
e os lábios sorrirem.
o amor havia chegado
e eu sequer havia percebido.

terça-feira, 3 de março de 2015

PONTO DE DIÓGENES

"Eu procuro um homem"
(Diógenes de Sínope, 413-323 a.e.c)

nunca encontrei homem algum
que conseguisse encarar-me os olhos
e não tivesse vergonha para assumir
sua força

nunca encontrei homem algum
que fosse capaz de ver-me humano
que fosse capaz de ser também homem
quando outro homem lhe ciscasse o terreno

nunca encontrei homem algum
que fosse capaz de afogar minha sede
de matar minha fome
de viver com meu juízo

nunca encontrei homem algum
que honrasse sua aliança!
e nunca encontrei homem algum
que não pensasse de sua pança!

os homens que encontrei
sempre flertaram com o fracasso:
sempre tontos, sempre cegos,
sempre irremediavelmente

homens

segunda-feira, 2 de março de 2015

BENTO (uma oração a um homem comum)

tua jaqueta não nega:
o frio de monte cassino
não é tão gelado
quanto o frio da alma

teus olhos fechados não mentem:
a verdade é de poucos, e a mentira
não é tão convincente
quanto o sofrimento

tua mão direita não luta:
o cálice embebido em veneno
não sufoca tanto
quanto o abraço improvisado

teu semblante não muda:
canção ao longe, cigarro ao lado
não se importando
quando o sol irá surgir

teu peito não esconde:
o ego aguarda o gozo e a palma

mas não cedes ao grito do inimigo

te submerges num mar de calma

MÃOS

minha mão direita
faz com a esquerda
conciliação:

uma aliança
põe uma mão
na outra mão.

mas qual a necessidade
da aliança de uma mão
com outra mão?

não é inútil
juntar-se ao caminho
que está na contramão?

mexem na minha cabeça
com dez dedos diferentes
que apertam o coração...

não revelam pensamentos
nem demonstram suas ações:
tudo é maquinação!

e assim passa a existência
e assim passa a história
neste corpo sem função:

é a minha mão direita
com a minha mão esquerda
fazendo conciliação...

FADE TO BLACK (bomba-relógio)

dez. o enorme preço das coisas
confunde meu coração
de olhos jovens e hábito senil.
enquanto vejo a marcha alheia,
corro para dentro do meu próprio interior.
há muitas palavras para nada dizer,
enquanto o significado exato me atinge em cheio.
percebo-me um milhão em um só.
desejo correr pelas avenidas
quando me torno

nove. já são onze da noite
e o clima vai se deitar mais frio.
não tenho acalanto. meu repouso
é dormir nos braços dos que me maltratam.
sinto a dor de quem me beija
e o amor de quem me escarra.
pareço apenas dois
na multidão de fantoches que me esperam.
quando me dou conta já sou

oito. o espaço é pequeno,
as palavras muitas,
e o suor gelado. espera no hospital.
o branco traz uma espécie de medo,
algo obscuro demais para ser tão alvo assim.
como se as folhas vazias apontassem minha insignifi

sete. três da manhã.
os vagabundos dominam a calçada,
as meninas entram pelo banco do passageiro.
o ar tem o cheiro
da pobre dama da noite que se abriu.
esqueci que não sou mais criança
quando o relógio bate

seis. barulho no metrô.
pessoas indo e voltando.
o desconhecido me vira a cara.
o pescoço manchado de sangue.
a distância entre o ódio e o soco.
os meninos riem.

cinco. a cidade não para
enquanto o peito escancara
essa voz
que no peito estala.
o mundo compõe a rima.

quatro. o que está além?
o que vem depois do fim?
"pai? você pode me ouvir?
pai? você está aí?"

três. manchete de jornal:
"chacina de deuses no monte olimpo.
ainda se procuram os culpados."

dois. estou preso neste quarto bagunçado
quando sinto que sou

UM!!! quem sou eu, afinal?

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