segunda-feira, 2 de março de 2015

FADE TO BLACK (bomba-relógio)

dez. o enorme preço das coisas
confunde meu coração
de olhos jovens e hábito senil.
enquanto vejo a marcha alheia,
corro para dentro do meu próprio interior.
há muitas palavras para nada dizer,
enquanto o significado exato me atinge em cheio.
percebo-me um milhão em um só.
desejo correr pelas avenidas
quando me torno

nove. já são onze da noite
e o clima vai se deitar mais frio.
não tenho acalanto. meu repouso
é dormir nos braços dos que me maltratam.
sinto a dor de quem me beija
e o amor de quem me escarra.
pareço apenas dois
na multidão de fantoches que me esperam.
quando me dou conta já sou

oito. o espaço é pequeno,
as palavras muitas,
e o suor gelado. espera no hospital.
o branco traz uma espécie de medo,
algo obscuro demais para ser tão alvo assim.
como se as folhas vazias apontassem minha insignifi

sete. três da manhã.
os vagabundos dominam a calçada,
as meninas entram pelo banco do passageiro.
o ar tem o cheiro
da pobre dama da noite que se abriu.
esqueci que não sou mais criança
quando o relógio bate

seis. barulho no metrô.
pessoas indo e voltando.
o desconhecido me vira a cara.
o pescoço manchado de sangue.
a distância entre o ódio e o soco.
os meninos riem.

cinco. a cidade não para
enquanto o peito escancara
essa voz
que no peito estala.
o mundo compõe a rima.

quatro. o que está além?
o que vem depois do fim?
"pai? você pode me ouvir?
pai? você está aí?"

três. manchete de jornal:
"chacina de deuses no monte olimpo.
ainda se procuram os culpados."

dois. estou preso neste quarto bagunçado
quando sinto que sou

UM!!! quem sou eu, afinal?

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