quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

VEJAM SÓ VOCÊS

para qualquer poeta
os escritos dos outros nada valem:

a única coisa que presta
é seu próprio egoísmo
seu próprio sentimento
sua própria versão dos fatos

os outros poetas?
que vendam livretos a dois e cinquenta
na feira do rolo

graças a deus não sou poeta:
não tenho apetite
para tanto nojinho
e tanta nojeira

sábado, 17 de dezembro de 2016

S.M.

toda perversidade
um dia
há de ser perdoada
ou esquecida

tem espaço para tudo
neste quarto de tranqueiras
chamado coração

quinta-feira, 23 de junho de 2016

CANINOS

o olhar de um cachorro
não mira o vazio

antes olha nossas falhas
nossos pêsames
nossas dores de não conseguir
ser eternos


*

em cada pálpebra inocente
existe a fúria canina
que ladra, mas não morde:

se ele que é tão cão
é tão humano
e a gente? por que não pode?

domingo, 19 de junho de 2016

DA PORNOGRAFIA

1. da pornografia do corpo
diante da nudez do corpo
resta a alma:
a única que pode realmente ser despida
com o máximo de decência

a lascívia que corrói a carne
está fadada a destruição:
o mesmo nojo de desejar um corpo putrefato
me assusta
quando desejo um corpo vivo

"é sempre a mesma história, meu querido:
um dia você deixa esta vida;
um dia você põe tudo isso para lá;
um dia você vai ver que isto não é o que você procura;
um dia você vai cair em si e perceber
que isto não é o que você estava procurando" 

mal sabem eles
que a vida vai além de todas estas categorias:
que tudo isto é muito forte, e que
mal dá tempo de viver uma vida só

mal sabem eles que escrevo poemas em gotas
- cada palavra equivale a uma dose de veneno -
e que meus pensamentos milimétricos não são masturbação,
ao contrário:
são afagos no rosto de meu vazio

2. da pornografia da alma
a alma nua é tão absurda
quanto um poema acabado
de forma 
abrupta 

sábado, 30 de janeiro de 2016

AUSÊNCIAS

sentes o gosto?
é a paixão que ainda não veio.
é a carta que ainda não veio.
é o alguém que ainda não veio.

teus amigos dizem, liquefeitos,
que a saudade dura apenas um segundo
e que não deves te importar com estas coisas.

para.
olha um canto.
perceba neste canto a tua imagem,
como se dela desprendesse a tua essência.
depois se volte a recolher teus próprios cantos.


* * *

sentes o tato?
é a conta que ainda não veio.
é a mãe que ainda não veio.
é a esperança que ainda não veio.

todo aquele que vence a saudade
se condena em não lembrar as coisas.
a saudade é uma ausência em sangue.

para.
olha teu lado.
perceba nesta gente os teus irmãos,
como se deles surgisse tua identidade.
e então encontras tua própria felicidade.

TROVAS DO AMOR CRESCENTE

dos meus sonhos escondidos
tiro um deles pra sonhar;
é um sonho colorido
tão bom de se imaginar.

é um sonho tão dourado
que ninguém vai perceber;
o seu brilho iluminado
logo vai nos envolver.

tiro o sonho da gaveta
e começo a construir;
nosso sol será um cometa
que só vai nos divertir.

terá fruta bem madura
e nas plantas muita cor;
terá um livro capa-dura
e não haverá rancor.

se o violão não fala
minhas mãos não vão calar;
os meus braços como em gala
te convidam pra dançar.

nossa casa na floresta
tem seresta e entardecer;
tem a madrugada: festa
que vem ao amanhecer.

quando chega o nosso sono
com a vontade de dormir;
a inocência do desejo
corre para se despir.

este sonho encantado
longe de todo terror;
é um refúgio ensolarado
onde quer que ele for.

dos meus sonhos escondidos
tiro um deles pra sonhar;
os meus braços como em gala
te convidam pra dançar...

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